Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Uma história inventada é sempre verdadeira

As histórias reais são pobres. Começam e acabam de uma determinada maneira, têm lógica, são lineares, cinzentas, óbvias. As histórias fictícias são as que têm interesse porque ultrapassam barreiras, criam novas realidades, fazem acontecer coisas, pervertem relações. Que me interessa se algo aconteceu ou não? Interessa-me é contá-lo como se tivesse acontecido. O resto é trivialidade, é vazio.
Nada melhor do que uma história inventada. Uma história inventada é planeada, tem estratégia, ritmo, imprevisibilidade, exige ser engendrada, faz vibrar enquanto é construída, é sempre mais bonita do que uma história real. Uma história inventada é uma viagem no verdadeiro sentido do termo. Uma viagem da qual nada se sabe, nem sequer o que nos espera na curva seguinte.
Uma história real é previsível, tosca, elementar. Na realidade de todos os dias, as pessoas inibem-se, retraem-se, ocultam o que pensam e o que sentem. Numa história inventada, pelo contrário, as personagens são capazes de se superar, de dar a volta, de questionar de forma consequente e pertinente, de criar sobre a criação.
Uma personagem fictícia não tem medo. Uma pessoa real tem todo o medo do mundo. Uma personagem fictícia subverte regras e códigos. Uma pessoa real limita-se a obedecer. E quando prevarica é punida.
As personagens fictícias são livres e eternas, as pessoas reais são submissas e limitadas.
Nas histórias reais não há narrador e, se o há, a sua intervenção só ocorre depois do sucedido. Nas histórias inventadas, há narrador e o narrador acompanha a acção por dentro, a todo o instante. Se não o fizesse, não haveria história.
Certa vez, vi duas pessoas discutindo na rua por causa de uma delas ter dito algo que foi mal interpretado. A situação degradou-se de tal forma que uma delas, a dado passo, puxou de uma arma de bolso e disparou contra o peito da outra, que morreu imediatamente. Um acontecimento sem imaginação, violento, primário.
Outra vez, li uma história em que duas pessoas discutiam por causa de uma delas ter estacionado mal o carro, mas depois acabou por surgir a ideia de irem dar um passeio para melhor se entenderem. Assim fizeram. Caminharam junto ao rio, conversaram tanto que acabaram por ir dormir juntas na casa de uma delas. E tiveram uma grande noite.
As histórias ficcionadas aumentam a realidade, dão-lhe cor, diversidade, flexibilidade.
Excitação a sério é nas histórias inventadas porque nunca sabemos até que ponto as coisas podem realmente acontecer ou se são fruto da imaginação de quem conta ou de quem ouve ou de quem lê.
Quando eu era criança, as histórias davam-me vertigens, faziam que me perdesse nos seus labirintos absurdos e loucos. E apetecia-me nunca mais voltar à superfície. Ficava por lá até depois de tudo terminar. Ia toda a gente embora, mas eu não. Gostava de me deixar ficar passeando pelos sítios que tinha imaginado, a ver se mais alguma coisa acontecia. E nunca morri por isso. É outra vantagem das histórias inventadas: é possível viver nelas para sempre. Mesmo que o narrador mate uma, ou várias, personagens, elas eternizar-se-ão na narrativa.
Uma história inventada, diga-se o que se disser, é sempre verdadeira. Completamente verdadeira. O que não acontece com as histórias reais, que são confusas e obscuras, além de serem rapidamente esquecidas.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Vi que os seus olhos não acreditavam

Quando me aproximei da porta, percebi que GS tinha companhia porque havia luzes acesas em diversas janelas. Passava pouco das 21 horas.
Premi a campainha e esperei, sem conseguir esconder um nervoso miudinho próprio das ocasiões em que não sabemos o rumo que as coisas vão tomar porque tudo é recente e pouco esclarecido.
Mal tinha acabado de tocar uma segunda vez quando a porta se abriu e surgiu alguém que devia ser familiar de GS. Percebi que a minha visita era esperada porque me foi logo flanqueada a entrada.
Senti alguma inibição, mas segui a pessoa por um corredor até à sala de estar, onde me deparei com GS no sofá, em atitude de descontracção e com um ar melancólico difícil de explicar.
Parecia que era a primeira vez que nos encontrávamos, mas era a segunda. GS fazia dança e com uma voz abatida informou-me que num dos ensaios tinha contraído uma entorse no tornozelo esquerdo.
Sentei-me a seu lado e procurei adaptar-me ao ambiente. GS vivia em casa dos pais, que falavam a meia voz na cozinha, onde se ouvia um moderado tilintar de talheres e movimento de pratos, deixando adivinhar que o jantar não terminara há muito.
Como não sabia o que dizer, estendi a mão, agarrei a de GS e deixei-me ficar assim, a ver o que acontecia. Era a primeira vez que tínhamos um gesto de intimidade. GS não fez qualquer movimento de rejeição, o que me encheu de uma segurança que poucos minutos antes eu estava longe de sentir.
A sua mão era quente, macia e seca. Através dela, eu tinha praticamente acesso aos seus pensamentos, pelo menos às suas divagações (eram mais divagações do que pensamentos).
Assaltou-me a dúvida de que GS poderia estar de mão dada comigo por esperar algo mais do nosso relacionamento. Ou talvez estivesse apenas em busca de algum conforto para a sua entorse. Os momentos a seguir poderiam trazer luz às minhas dúvidas. Mas tal não sucedeu.
GS pouco falou todo o serão e não teve qualquer outra iniciativa de aproximação para além de deixar estar a sua mão aninhada na minha.
A certa altura, dei-me conta de que havia música suave pairando na sala e perguntei-me por que motivo não me teria dado conta disso antes. Talvez porque o volume do som estava bastante baixo ou porque a pose de GS se confundia com a própria música.
GS tinha a arte de se sentar no sofá como quem dominava um palco sem necessidade de se deslocar. O ar era de uma leveza extrema à sua volta. Tal como as palavras que a sua mudez escondia.
Mas o silêncio que ao longo de quase duas horas se foi derramando da boca de GS nunca me incomodou. Pelo contrário, fez-me entrar numa névoa doce que tinha o condão de resolver os meus conflitos de consciência.
“Quando voltares ao teu país nunca mais te lembrarás de mim”, foi uma das últimas frases que lhe ouvi.
Discordei e expliquei que assim não seria, que havia de lhe telefonar logo que aterrasse em Lisboa e que na primeira oportunidade voltaria a Austin. Mas vi que os seus olhos não acreditavam no que eu dizia.
Despedimo-nos com um beijo nos lábios. GS pediu-me desculpa por não me acompanhar à porta de saída. Já não havia sinal dos pais na cozinha, que estava às escuras. Aproveitei para me esgueirar através do corredor, saindo sem barulho.

Domingo, 7 de Junho de 2009

Zanga

Quando LR viu ASE aparecer, com mais de duas horas de atraso, sentiu um calor dentro de si que nunca mais parou de encher. E no momento em que enfrentou a sua silhueta a pouco menos de um metro de distância, ainda por cima sorrindo, perdeu a compostura e desatou a protestar pelo contratempo que a sua demora lhe tinha causado, arengando e refilando, de dedo no ar, entre insistências de que não admitia semelhante abuso.
O que mais enfureceu LR foi o ar sorridente com que ASE apareceu, dando ares de nem se preocupar com o relógio, como se não houvesse qualquer combinado a cumprir. A dado passo, LR ficou com a impressão de que o seu sorriso era mais de escárnio do que de simpatia e isso fez-lhe estourar a paciência. Mais tarde, LR soube que ASE sorriu de alegria e, talvez, de nervos, mas na altura não tolerou aquela expressão.
LR pôs-se a andar energicamente sem pensar na direcção que estava a seguir. Nada podia deter nem fazer mudar de rumo a sua fúria, que até parecia deixar Lisboa inclinada.
ASE seguiu-lhe na peugada, acelerando o passo, para não se deixar ficar para trás, com receio de que a sua relação terminasse por causa de um simples equívoco horário, enquanto LR não desistia de despejar rajadas de argumentação que o tempo de espera ajudara a acumular.
Quando LR se calou, ASE aproveitou para lhe dizer, com a delicadeza de que foi capaz, que o combinado para se encontrarem não fora às 18 horas, mas sim às 20, razão por que entendia que aquela discussão não se justificava.
LR ripostou e quase espumou, dando socos no ar e dizendo que não estava na disposição de lidar com mentiras, falsas alegações, desonestidades.
ASE considerou que LR estava a ir longe de mais e afirmou que não tolerava que lhe falassem daquela maneira.
- Nunca pensei que alguma vez me insultasses de forma tão ofensiva – disse, ante a revolta indomável de LR.
- Mas olha que ainda não despejei tudo – retorquiu LR. – Se pensas que esqueci aquela vez em que disseste ter ido às compras quando afinal tinhas estado em casa de quem eu muito bem sei… olha que não esqueci.
ASE alegou que LR estava a distorcer o que se passara e que não valia a pena voltar a um assunto que estava esclarecido e encerrado desde há muito.
- Não queres voltar ao assunto porque não te interessa – argumentou LR. – Quem diz que está esclarecido e encerrado és tu…
- Por mais que eu explique, nunca hás-de acreditar nas minhas palavras.
- O que dizes é sempre diferente do que acontece. Nunca sei a quantas ando contigo.
E, logo a seguir a este argumento, LR desatou a fugir por entre as árvores do Campo Grande a uma velocidade que ASE estava longe de poder acompanhar, por isso desatou aos gritos pedindo que LR parasse, que tivesse calma, que tomasse juízo, mas LR só fugia, galgava distância cada vez mais depressa, ao ponto de a certa altura lhe ter saltado do pé um sapato, só que em vez de se deter para o recuperar, o que fez foi aumentar o ritmo da corrida, por entre pulos e ziguezagues que passavam ao lado das pedras e covas do caminho.
ASE pediu ajuda a quem viu por ali e depressa duas pessoas se lhe juntaram, pondo-se a correr atrás de LR, como se tivesse havido um roubo de galinhas, ourivesaria ou igreja.
Poucos metros adiante, porém, cansaram-se da perseguição e sentaram-se num banco debaixo de uma árvore a conversar acerca da falta de empregos, das suas famílias, da frescura da manhã e de morangos.
Quando ASE ouviu falar de morangos afastou de vez a lembrança de LR. Disse que tinha visto morangos à venda em Entrecampos, levantou-se sem perder tempo, pediu – esperem aqui que não demoro – e foi a correr comprá-los, prometendo voltar com um saco cheio.

Domingo, 24 de Maio de 2009

O meu dedo quase desaparecido

Entrámos na casa, pousámos os sacos de viagem e pusemo-nos a olhar em redor a ver se era verdade o que se ouvia dizer. Havia um silêncio doce que inundava os quartos e que transbordava pelas portas entreabertas até junto dos nossos pés. Numa das paredes da sala, os retratos dos proprietários olhavam-nos com ar minucioso e autoritário.
MET sempre dissera que nada receava, mas eu não tinha a certeza se as suas palavras pretendiam tranquilizar-me ou se correspondiam ao que realmente sentia. Avançou na direcção da cozinha, procurando descobrir onde ficava a casa de banho, e eu apressei-me a seguir-lhe no encalço, não fosse dar-se o caso de me surgir pela frente algo inesperado.
- Vou tomar duche – disse MET, com uma naturalidade que me arrepiou, enquanto eu aproveitava para deitar uma olhadela à cozinha, que ficava mesmo ao lado da casa de banho.
Enquanto MET tomava duche, pus-me a mexer em tachos e pratos e fui dispondo a mesa para o jantar. Havia sopa de legumes, chouriço, queijo, ovos, vinho. Mais do que o suficiente para aquecer a noite.
Quando MET terminou o banho, avancei para o duche, empenhando-me em vigiar a sua sombra do quarto para a cozinha e da cozinha para o quarto. Era a melhor companhia que podia ter naquele momento.
- Já viste bem o quintal? – Perguntei, erguendo a voz acima do barulho da água do duche, enquanto me ensaboava à pressa, para evitar que alguma coisa me escapasse ao controlo.
Logo que acabei de me enxugar e vestir, sentámo-nos à mesa e desatámos a vazar a garrafa de vinho. MET cozinhava bem, o que contribuiu para animar o serão. Falámos tanto que nem demos pela passagem das horas.
À meia-noite, MET levantou-se e disse que se ia deitar. Senti um arrepio, mas contive-me. Só quando me preparava para entrar na cama ousei perguntar se havia algum problema em dormirmos de luz acesa. MET desatou a rir com os olhos ensonados e replicou que lhe era indiferente. Apetecia-me pedir-lhe que passasse a noite em claro…
Havia na casa uma pressão invisível e inexplicável. Mas eu não tinha a certeza se isso era efeito do vinho, ou se se tratava de uma situação real que estava a tomar conta de mim.
Olhando para MET, com a roupa da cama puxada para o queixo, eu não adivinhava que sensações invadiam a sua mente. Perguntei-lhe como se sentia e a resposta que obtive foi que não se podia sentir melhor. Eu não percebia o seu à vontade numa casa que tinha a carga que aquela tinha. Era provável que MET estivesse apenas a tranquilizar-me, mas nunca tive oportunidade de o confirmar.
- Achas que conseguiremos dormir sem problemas? – Perguntei, metendo conversa.
- Por que não? – Replicou MET. – Não vejo qualquer problema. – Notas algo de estranho?
- Não – retorqui, embora tivesse dúvidas sobre a exactidão das minhas palavras.
Quando me apercebi de que MET dormia a sono solto, compreendi que a partir daquele momento estava por minha conta.
Dei graças por ter bebido bastante vinho ao jantar. Mas também sabia que, se o não tivesse feito, teria uma percepção mais nítida sobre o que estava a acontecer na casa. Porque estava a acontecer qualquer coisa. Só que eu não sabia o quê, nem como, nem desde quando. Nem tinha hipóteses de impedir o que quer que fosse. Havia uma paz sublime que inundava tudo em volta… uma luz que se ia tornando cada vez mais intensa… e cujo âmago o meu dedo quase desaparecido jamais alcançaria.

Domingo, 10 de Maio de 2009

O amor está em toda a parte

Escrever é assumir a plenitude do corpo. É nesse momento sem tempo que a alma se torna inteira, passeando por entre os candeeiros de rua onde não há brisa que corra. Juntar palavras que começam na respiração da água enquanto os passos se vão esfumando entre pingos. Cada palavra escrita tem dentro dela o combate dos mortos, dos finados, dos que em cada sílaba se deixaram agonizar e acabar. Sons que se desfazem, refazendo os dias sobre o coração. Nada se consegue justificar sem escrever, esse pensamento metódico que nos faz selvagens com voz desarticulada.
Quando se vê, escreve-se. Escreve-se o que se vê, para além do que ver inspira. Ao escrever, vai-se vendo mais, caminhando palavra a palavra. A escrita está nos olhos sob o reflexo do que se deseja e não se diz.
Escreve-se por miséria e por grandeza. Na borda de uma pedra que o vento encosta, retábulo de uma conversa interrompida, rosto do que falta explicar. Juntar palavras, erguê-las, destruí-las, recuperá-las, ungi-las. A escrita corre pelos dedos. Escoa-se, perde-se. Nada faz sentido, nada se ergue, nada se alcança quando a escrita se ausenta.
Dá-se um passo, hesita-se, recua-se. É assim a escrita. Junta as mãos sobre o peito e reza por nós, por todos os que sofrem em nós.
Aproximou-se de mim aquele rosto escrito que me rodeou, me encheu, me espiou, me invadiu. Deixei-me afundar no seu brilho de palavras silenciosas. Era a palavra que voltava. Voltava sempre maior, mais refulgente.
E veio gente vestida de branco sossegar a minha angústia e pedir liberdade. Quando não escrevemos deixamos de estar presos. Há uma força em nós que não se aquieta. Deus-palavra sobre as rosas da tarde, sossegadas, insistentes, abelhas incapazes.
Escrever é o espaço das razões, das nuvens correndo sobre as marés. Mares acorrentados dentro das palavras.
Como posso não escrever? Como posso não pensar?
Escrevo para ir de viagem sem regresso, por montes e vales e praias húmidas, alheias ao descanso e à lógica.
Assim me entendo. Para saber de mim noutros sítios e linguagens, para me reencontrar na negação dos outros em mim. Seguir por dentro de cidades com histórias sem nome. Sempre cidades. Até de madrugada.
Que interessa o resto? As avenidas continuarão em mim, continuarão no seu burburinho de gente descabelada e agreste que avança nas fachadas ardentes. Mistério das viagens e sóis quando nascem.
Não fora assim e nada jamais existiria, nada jamais mereceria ser escrito. Foi esta a razão de ser que encontrei. Escrever o que não se traduz.
Poderia ir por aqui adiante, eternamente, sem nunca terminar a escrita, porque a escrita é eterna e essa é a sua finalidade exclusiva.
Quero ser escrita. Apenas. Irremediavelmente. Existir na escrita e não ouvir nem ver coisa nenhuma. Não interessa o dia nem a hora. O amor está todo em toda a parte.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Qualquer coisa circular que nos sugava

O seu rosto estava sobre o meu ombro e eu não conseguia perceber se GTR estava triste ou alegre. Eu sentia o calor da sua respiração na roupa colada à pele, uma aragem suave que me atravessava até ao coração. Não me apetecia falar, nem fazer perguntas, nem coisa nenhuma.
O céu estava cinzento sobre o tecto das nossas cabeças. Ameaçava chover. Ameaçava trovejar nas nossas almas. Cada suspiro de GTR fazia-me fraquejar. Cada suspiro seu era um tormento. Eu pensava que a culpa era minha. Sentia culpa por qualquer coisa que tinha feito, mas não sabia o quê. Também não era capaz de perguntar, com receio de que a resposta viesse piorar tudo o que estava a acontecer.
O cabelo de GTR, anelado e revolto, agasalhava-me o pescoço. Os seus braços apertaram-me, apertaram mais, e depois seguiu-se uma respiração funda que resultava de cinco ou seis suspiros somados.
“De hoje não escapo”, pensei. “Hoje é o meu último dia”.
Mas não havia maneira de GTR dizer alguma coisa. Não havia maneira de me libertar das suas garras doces.
Abracei o seu corpo, também. Apertei-o até fazer ceder os seus músculos sob a minha força, a minha ansiedade, a minha preocupação.
Lembrei-me do dia em que conheci GTR: eu descansava numa mesa de café, abrigando-me da chuva e, de súbito, vejo aproximar-se uma pessoa iluminada e radiosa que perguntou se podia sentar-se à minha mesa.
Respondi que sim e fiquei a ouvir o que tinha para dizer. Ao fim de uns minutos, percebi que tão cedo não nos separaríamos.
GTR falava e sorria, simultaneamente, mesmo quando as suas palavras davam vontade de chorar. E, para não chorar, eu também ria, sorria, tentando mudar de conversa, embora sabendo que não conseguiria sair dali com a mesma solidão com que entrara. Ainda hoje continuo a pensar que GTR sorria e falava ao mesmo tempo para não pensar, para não se desintegrar.
Três semanas depois, GTR ainda estava comigo. Tínhamos vindo para casa conversar, mas acabáramos por não nos separar. Contudo, durante aquelas três semanas, eu nunca deixara de sentir que GTR estava de partida. Era uma sensação sem fundamento, mas não conseguia lidar com o caso de outra maneira. Em GTR, tudo era leve, ligeiro, banal. Talvez fosse essa a causa do sentimento de perda iminente que tomara conta de mim. Se GTR tivesse permanecido em minha casa por cinquenta anos, nem por isso eu teria sentido de outra maneira.
Vivemos dias arrasadores. Nunca saímos do quarto onde dormimos. Só de vez em quando eu ia à cozinha fazer um café ou uma torrada que nos pudesse manter com vida.
Não nos apercebemos da passagem do tempo. Ao fim de três semanas, eu já devia ter perdido o emprego e o mesmo devia ter acontecido com GTR. Mas não nos importávamos com isso. O que tínhamos descoberto era mais forte que tudo. Quase um mundo paralelo que estávamos prestes a perder.
Quando o dia da partida chegou… ainda dava a sensação de que poderíamos estar no início –sempre no início – de um processo, de qualquer coisa circular que nos sugava.
Abraçámo-nos, sem coragem de emitir palavra. Só nos apertámos até aos ossos. Depois, como se para evitar qualquer justificação, GTR desatou a correr porta fora, enquanto eu me lançava para a janela, na expectativa de acompanhar a sua fuga por trás da copa de uma árvore, junto à esquina de um prédio em construção, através de cujas vigas o sol enlouquecia com brandura.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Na esperança de que ressuscitasses

Querias o amor, mas ao mesmo tempo recusava-lo. O dilema era mais forte do que tu. Ficavas a ouvir-me noites inteiras, em silêncio, como se dependesse de mim tudo o que faltava resolver. Deixava-me ir atrás das minhas próprias palavras, sabendo que me ouvirias, mesmo que não compreendesses partes do que eu dizia. Perdia-me em cada frase, em cada ideia que se enovelava no labirinto dos sons. Perdia-me e sentia-me útil, desconcertante.
Às vezes, fazia-te perguntas e tu rumorejavas qualquer coisa que pouco ou nada acrescentava aos factos, às descrições, aos labirintos por onde eu me metia para te comunicar alguma coisa que não podia deixar de partilhar.
Entrelaçava a minha mão na tua, na esperança de que ressuscitasses e sentia o teu corpo inteiro por entre os nossos dedos vibrantes.
Pensavas em quê? Nunca o saberei. Muitas vezes, tentei adivinhar, mas o meu esforço era vão. Sempre te recusaste a contar-me o que sentias, o que receavas no meio da tormenta.
E fomos sobrevivendo. Quase sem darmos por isso. Houve alturas em que de repente dizias querer ir-te embora e houve outras em que me apontaste a porta de saída e disseste que estava na minha vez de procurar um novo caminho. Minutos depois, mudavas de ideias e já nada fazia sentido.
Eu ia ficando e passando. Porque dentro de ti havia uma cola que me segurava, havia algo inexplicado que mantinha a sua consistência. Como numa viagem em que a mesma paisagem está sempre a mudar.
Fiz-te propostas. Não quiseste saber.
Julgavas-me em demasia, não sei como, nem porquê. E dizias que não estavas na disposição de me aturar.
Um dia, entraste em casa às tantas da manhã, deitaste-te a meu lado na cama, encostaste-te, aqueceste-me e murmuraste-me ao ouvido o que tinhas andado a fazer. Senti um calafrio, uma impressão no estômago que ainda hoje me arrepia. Rias-te imenso, com a tua boca grande, rias baixinho com a tua boca de borboleta esvoaçante por entre os reflexos da noite.
- É agora que me vais deixar em paz? – perguntaste.
Não fui capaz de te responder. A minha vertigem cobria a noite redonda. Não via nesga por onde escapar, embora eu não tivesse a certeza de te querer deixar. Só queria encontrar um momento no qual me pudesse afundar e desaparecer por umas horas, para depois voltar a ti e ao que havias feito.
Era aí o meu ninho. O sítio de onde vinhas era o que eu tanto procurava. A minha viagem parada no tempo contigo.
- Voltemos ao princípio… – disseste, sempre a rir nos cantos amarelos da escuridão.

Sábado, 21 de Março de 2009

O dia em que nunca cheguei a Buenos Aires

Fizeram-me sinal para na direcção de uma rua estreita que eu não fazia ideia onde conduzia. Avancei discretamente, procurando não perder de vista o chapéu que seguia alguns metros à minha frente e que, a dada altura, desapareceu por uma cave.
Empurrei a porta antes de ela se fechar e segui por um corredor escuro, às apalpadelas. O que estava a acontecer-me coincidia com o que fora combinado, daí a minha relativa confiança.
Dei com uma porta aberta à minha direita, vi uma sala iluminada e entrei. Sentei-me e esperei que aparecesse alguém.
Dentro de poucos minutos, eu estava de conversa com duas pessoas que nunca tinha visto. Olharam-me com serenidade depois de exporem os seus argumentos de forma metódica e ficaram à espera de que eu dissesse alguma coisa.
Tentei esclarecer uma ou outra dúvida sobre o plano apresentado. Reparei que DT falava mais do que ASF. Parecia ter a seu cargo a direcção do projecto.
Foi-me sugerida uma deslocação a Buenos Aires, onde devia ter lugar a operação pretendida.
Argumentei que não conhecia a cidade e que o tempo de que dispunha era pouco.
ASF sorriu e comentou que talvez fosse uma boa oportunidade para conhecer uma cidade singular. Senti que só me restava aceitar a proposta.
– Pode pensar no assunto durante uns dias – disse DT. – Temos pressa, mas podemos esperar que amadureça a ideia.
Apesar de nada me surpreender no que ouvia e compreendia, reconheço que a situação tinha chegado a um ponto bastante diferente do projecto inicial. Pretendiam que eu intermediasse uma investigação, mas eu estava longe de pensar que teria de viajar para Buenos Aires. Depois, nem sabia se me pediriam mais coisas…
Como eu não era especialista na matéria, nunca alimentara esperanças no caso. Mas, pelos vistos, a minha acção era considerada preponderante.
– Tem aqui o nosso contacto. Diga-nos qualquer coisa antes do fim-de-semana – afirmou ASF, com voz controlada.
Quando deixei a sala, pus-me a fazer contas sobre o tempo que demoraria para ir e vir a Buenos Aires. A minha intenção era ir lá antes de informar DT e ASF sobre a minha decisão. Nada como me adiantar à própria realidade. Poderia sempre recorrer a uma velha amizade, para tentar descobrir alguma pista sobre o que estava em preparação.
Quando cheguei a casa, reequacionei os dados que me tinham sido colocados. Fiz uma sandes e preparei um café, enquanto ia reflectindo sobre alternativas ou eventuais recusas ao convite.
Concluí que o melhor era não me desviar da proposta que me haviam feito. Não tinha motivos para desconfiar de DS nem de ASF. Pelo contrário, possuía as melhores referências sobre os seus percursos profissionais.
No dia seguinte, quando saí para fazer umas compras de ocasião, reparei que no meu encalço havia uma sombra que me seguia por todo o lado. Acelerei a marcha para testar a sua resistência e quando pensei que estava finalmente livre, dei de caras com um rosto seráfico que me atendia na caixa registadora e pelo seu olhar de gelo percebi que a minha vida estava nas suas mãos.

Terça-feira, 3 de Março de 2009

Falamos palavras sem beijos

Amanheço e vou à janela ver como está o tempo no teu país. Por vezes, dou de caras contigo, já a trabalhar, em plena concentração. Dou-te os bons dias e vejo o teu sorriso inundando a paisagem à minha frente, uma pequena janela que nos liga através de milhares de quilómetros.
Sinto a minha pequenez tropeçando por entre as palavras neste lado em que me encontro. Pela tua expressão facial, vejo como estão as coisas contigo.
Falamos palavras sem beijos, coisas que vêm à ideia. Dentro de minutos estarás de novo a trabalhar, sempre na tua janela, como um pássaro madrugador.
Para não te desconcentrares, evito, por vezes, fazer comentários. Depois, desço para meter qualquer coisa na boca e procuro não demorar, a fim de reduzir o tempo em que não nos vemos.
Chego de novo à janela e noto que a tua dedicação ao trabalho é completa. Em certas alturas, digo um disparate, só para te ver rir. E ris, sempre que digo alguma coisa.
Fomos construindo assim a nossa família. Tu na tua janela, eu na minha. Houve dias em que DB passou e não me ligou e houve dias em que se pôs a conversar comigo como alguém com centenas de vidas.
Do meu lado, há, por vezes, uma inquietação, talvez um nervosismo, que não sei explicar. Um peso fundo da tua ausência, apesar da proximidade da janela em que me acompanhas.
És a minha viagem mais longa, a que faço mais vezes, aquela que não termino, nem começo.
Todos os dias a inicio num jacto ao retardador, sem hora de partida. E vejo a paisagem que passa por ti, ondulando na senda das horas carregadas de emoção.
Há noites em que te vais deitar e deixas a janela aberta para que eu possa entrar e sair conforme me apetecer, para que possa sentir-te a todo o momento, mesmo quando adormeces debaixo das luzes da tua cidade.
E eu fico a olhar a escuridão do teu sono distante, tão perto de mim, como um desejo insano. Fico a olhar e viajo até junto da tua cama, para te ouvir respirar e deitar-me nos teus lençóis. Mas é apenas um sonho meu que a necessidade de estar contigo alimenta. Na realidade, vou para a cama, para outra cama, logo depois de ti, apesar da janela que nos separa e em cujo peitoril repousam expectativas que nunca hão-de ser registadas.
Na janela de que falo, estás tu, mesmo quando te ausentas. É uma janela do tamanho do teu coração junto ao meu. É um espelho, em certos dias. Uma superfície aguada que a minha mão invisível segura na vertical. E assim vou morrendo à tua beira.

Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

A orelha recortada

Encontrei VCL quando entrava para o autocarro que me levaria a Roma e nunca mais nos largámos. Sentámo-nos lado a lado e fomos conversando pelo tempo fora como se não houvesse estrada que nos detivesse. VCL tinha uma voz estridente e por vezes falava de tal maneira ao meu ouvido que eu não sabia se estava a gritar ou se apenas se expressava de forma mais viva e calorosa.
Inicialmente, estranhei a sua maneira de comunicar. Mas depois pareceu-me que a forma vibrante como se exprimia tinha a ver com a sua forma de ser. Era como se o que dizia fosse cantado para um teatro cheio de público.
VCL agarrava-me nas mãos e apertava-as só para explicar melhor o que me queria dizer. Tudo era imenso no seu corpo, na sua voz, nos seus gestos, nas ideias que partilhava comigo.
Começara a sua viagem em Nápoles e não tinha ideia de terminar tão cedo. Tencionava seguir pela Europa até se cansar. Planeava trabalhar em restaurantes para pagar a comida que lhe dessem e tinha ideia de ficar com uns trocos para ir pagando as pensões.
Eu estava em fim de viagem. Andava pela Europa há um mês e não tinha intenção de prolongar por muito mais tempo a minha ausência de casa.
À medida que falava, VCL tocava por vezes com a sua perna na minha e eu ficava sem saber qual seria a sua intenção, se é que tinha alguma. Podia fazê-lo por distracção ou por malícia.
Decidi tentar perceber o que se passava. E logo que tive oportunidade, aproveitei um movimento do autocarro para deixar tombar a minha perna sobre a de VCL.
Em resposta, levei uma joelhada das valentes e nem tive hipótese de protestar. Porque VCL me atravessou com uns olhos que quase me fulminavam. Ainda pus a hipótese de pedir desculpa, mas depois pensei que era melhor não o fazer. Para não ficar sem resposta, desatei à gargalhada, como se não tivesse percebido o que acontecera, ou como se o que acontecera me fosse completamente estranho, ou tivesse acontecido com outra pessoa.
O que os olhos de VCL queriam dizer era que eu não estivesse com gracinhas e apeteceu-me retorquir-lhe que a sua perna fora a primeira a tocar na minha, mas acabei por não dizer nada.
Compreendi que se queria continuar na sua companhia devia dar por esquecido o incidente. Dávamo-nos bem e não convinha estragar uma amizade por causa de um toque entre duas pernas.
Chegámos a Roma com caras de sono e exaustão. VCL quis procurar uma pensão barata. Concordei, porque também já não tinha muito dinheiro.
Partilhámos o quarto, que tinha duas camas individuais. Apagámos a luz e deixámo-nos estar em silêncio a ouvir os carros que passavam na rua.
Um placard luminoso avermelhado incidia sobre os lençóis de VCL, iluminando a sua orelha bem recortada.
- Não consigo dormir – disse eu, a dada altura.
- Nem eu – replicou VCL, com a voz arrastada.
Acabámos por encostar as camas, para ficarmos mais perto durante a noite. Adormecemos aos poucos, com os corpos leves, como se morrendo, sem darmos por isso.