Ao chegar a um aeroporto, detenho-me a olhar táxis afogueados que despejam passageiros, portas de vidro que abrem e fecham à medida de quem entra e sai, agentes de segurança, empregados de companhias aéreas, agências de viagem e carros de aluguer, carrinhos de transporte de bagagem, quadros electrónicos informando sobre horas e destinos.
A seguir, entro… e avanço para a primeira tabacaria que encontro, pondo-me a ler títulos de jornais enfileirados nos expositores, nas mais diversas línguas, umas que me são perceptíveis, outras que não. Vejo revistas (de arte, moda, carros, natureza, arquitectura…), malas de bagagem, livros, prendas de ocasião, enquanto ao mesmo tempo observo pessoas que vagueiam por entre prateleiras e conjecturo acerca de quem serão e do que pensarão conforme os objectos diante dos quais se detêm. Há quem olhe à distância e há quem se aproxime e toque nos artigos, como se quisesse apurar se têm vida, ou não.
Quando considero que já estou ao corrente do que se passa no mundo, das tendências do design e das modas, procuro um bar, onde tomo o primeiro café do dia, essencial para a minha revitalização. Peço também uma sandes e poiso a mochila, que encosto a um dos pés, para ter a certeza de que não desaparecerá.
Dali, sigo para a zona das lojas, onde, geralmente sem passar da porta, me ponho a mirar o que têm à venda. Nunca gostei de entrar num estabelecimento comercial sem intenções de comprar, para não criar falsas expectativas em quem lá trabalha. Além disso, detesto que me abordem e perguntem com voz melosa se preciso de ajuda. Por isso, muitas vezes, olho apenas à distância, para que fique claro que não tenciono adquirir o que quer que seja.
Quando me canso de ver sabonetes, gravatas, perfumes, chocolates, sento-me numa mesa, com uma garrafa de água na frente, e ponho-me a ler um livro, ou a estudar rostos que desfilam a caminho deste ou daquele país. São sempre imprevisíveis os rumos que levam as pessoas num aeroporto. Há as que avançam com olhos de ansiedade e as que empurram malas de todos os tamanhos e cores pelos corredores amplos, enquanto procuram informação sobre algum pormenor ou um simples transporte que as conduza a um hotel, ou a casa de alguém. Num aeroporto, o mundo inteiro passa à nossa frente: árabes, japoneses, africanos, coreanos, ingleses, italianos, americanos, brasileiros, gente de todas as latitudes, em silêncio ou falando pelos cotovelos, em passo apressado para chegar ao seu destino, ou em ritmo de passeio para sentir o ar da cidade, ou apenas dormitando nas cadeiras.
Sempre que passo num aeroporto, procuro descobrir recantos e espaços que me possam acolher, caso, um dia, venha a ter oportunidade de viver na fronteira de todos os países. É uma hipótese que me persegue. E que me alicia.
Já ouvi falar de alguém que vive num aeroporto não sei de que país, alguém que perdeu o passaporte, salvo erro, e que por ali se deixou ficar. Li a reportagem da primeira à última linha. Nunca consegui deixar de me projectar nesse caso. Penso que cheguei a guardar o jornal. Muitas vezes, invejei essa pessoa e sonhei apoderar-me do seu corpo sem pátria a viver no meio de gente desconhecida, gente tão próxima, tão semelhante, tão fugaz.
Não interessa onde seja o aeroporto que me queira receber. Na Austrália, no Peru, na Islândia, tanto se me dá. O que quero é ter à minha volta seres de todas as nacionalidades, línguas e feitios, para que, através deles, eu possa estar sempre em toda a parte e não estar em nenhuma.
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
sábado, 24 de Outubro de 2009
Transição
Paro numa estação de combustível para saber o que vai no ar, para desentorpecer. O vento segue-me desde que saí de casa e preciso de espairecer, embora só tenha conduzido cerca de dez minutos. Mesmo assim, decido parar, para quebrar a rotina, o que já significa muito.
É pouco provável encontrar alguém conhecido. Mas, se tal suceder, limitar-me-ei a cumprimentar vagamente como quem não vê bem… como quem está de passagem, e eu estou.
A estrada é a minha liberdade, nem que seja por meia dúzia de minutos.
Quando me aborreço, meto-me no carro e vou dar uma volta, para apreciar bermas de ruas, prédios, árvores, sombras que o vento agita. Enquanto isso, paro numa bomba de gasolina e recupero espírito.
Quando me meto à estrada, esqueço tudo o que me aconteceu naquele dia e em todos os anos que vivi. É como se começasse uma nova vida, cuja lógica tem a ver com o que encontro nas estações de combustível.
Basta-me entrar e verificar que tenho ao meu dispor café, sandes, pastilhas elásticas, jornais, revistas, máquina de dinheiro… O mundo todo resume-se ao que refulge ante os meus olhos.
Mesmo quando vou a caminho de alguma tarefa, ou reunião, com hora marcada, não resisto a deter-me por rápidos minutos na primeira bomba de gasolina que se me depara, correndo o risco de me atrasar para o compromisso, eu que por nenhuma razão deste mundo deixo de chegar a horas, onde quer que vá.
Parar numa estação é dispor do meu direito a interromper a vida e não pensar em nada. Esquivo-me por detrás de umas prateleiras, consulto a minha conta bancária, bebo um café bem amargo e é como se entrasse noutra dimensão.
É um intervalo no curso do dia. Quando não sei o que escolher, o que comprar, trago uma garrafa de água e isso basta para me fazer sentir outra pessoa. O simples facto de ter uma garrafa de água na mão dá-me alento para enfrentar as coisas com que me depararei nos minutos seguintes, dá-me a noção de ser mais pessoa.
Não compro jornais, mas não resisto a passar os olhos pelas primeiras páginas, para ficar a saber o que vai acontecendo aqui e ali.
Quem reparar em mim numa estação de combustível verá, decerto, o meu olhar perdido na paisagem de vidro e dispensar-se-á de tentar apurar quem sou e o que faço num sítio daqueles. Olhar-me-á e não terá qualquer necessidade de se aproximar, não sentirá qualquer atracção.
Uma estação de combustível marca a minha distância dos acontecimentos e das pessoas. Permite-me interromper uma qualquer viagem. É uma suspensão que adia tudo. Se eu ficar em casa, a velhice toma conta de mim e torna-me frágil, enterra-me no silêncio do tempo. Se for a conduzir na estrada, o tempo corre veloz e tudo se precipita.
Numa bomba de gasolina, nada me afecta. Tudo o que acontece, bom ou mau, é transitório. Um momento breve, sem história. Como se eu vá durar apenas mais uns dias…
É pouco provável encontrar alguém conhecido. Mas, se tal suceder, limitar-me-ei a cumprimentar vagamente como quem não vê bem… como quem está de passagem, e eu estou.
A estrada é a minha liberdade, nem que seja por meia dúzia de minutos.
Quando me aborreço, meto-me no carro e vou dar uma volta, para apreciar bermas de ruas, prédios, árvores, sombras que o vento agita. Enquanto isso, paro numa bomba de gasolina e recupero espírito.
Quando me meto à estrada, esqueço tudo o que me aconteceu naquele dia e em todos os anos que vivi. É como se começasse uma nova vida, cuja lógica tem a ver com o que encontro nas estações de combustível.
Basta-me entrar e verificar que tenho ao meu dispor café, sandes, pastilhas elásticas, jornais, revistas, máquina de dinheiro… O mundo todo resume-se ao que refulge ante os meus olhos.
Mesmo quando vou a caminho de alguma tarefa, ou reunião, com hora marcada, não resisto a deter-me por rápidos minutos na primeira bomba de gasolina que se me depara, correndo o risco de me atrasar para o compromisso, eu que por nenhuma razão deste mundo deixo de chegar a horas, onde quer que vá.
Parar numa estação é dispor do meu direito a interromper a vida e não pensar em nada. Esquivo-me por detrás de umas prateleiras, consulto a minha conta bancária, bebo um café bem amargo e é como se entrasse noutra dimensão.
É um intervalo no curso do dia. Quando não sei o que escolher, o que comprar, trago uma garrafa de água e isso basta para me fazer sentir outra pessoa. O simples facto de ter uma garrafa de água na mão dá-me alento para enfrentar as coisas com que me depararei nos minutos seguintes, dá-me a noção de ser mais pessoa.
Não compro jornais, mas não resisto a passar os olhos pelas primeiras páginas, para ficar a saber o que vai acontecendo aqui e ali.
Quem reparar em mim numa estação de combustível verá, decerto, o meu olhar perdido na paisagem de vidro e dispensar-se-á de tentar apurar quem sou e o que faço num sítio daqueles. Olhar-me-á e não terá qualquer necessidade de se aproximar, não sentirá qualquer atracção.
Uma estação de combustível marca a minha distância dos acontecimentos e das pessoas. Permite-me interromper uma qualquer viagem. É uma suspensão que adia tudo. Se eu ficar em casa, a velhice toma conta de mim e torna-me frágil, enterra-me no silêncio do tempo. Se for a conduzir na estrada, o tempo corre veloz e tudo se precipita.
Numa bomba de gasolina, nada me afecta. Tudo o que acontece, bom ou mau, é transitório. Um momento breve, sem história. Como se eu vá durar apenas mais uns dias…
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
Regresso com mala pesada
Quando saí do avião, mal pus o nariz de fora, tive a impressão de não ter chegado à minha terra. Mas estava longe de imaginar o que me esperava. Calculei que ao fim de mais de vinte anos nem tudo se encontraria na mesma. Mas alguma coisa havia de ter permanecido. Por mais gente que se tivesse ido embora, eu acalentava a esperança de abraçar alguém do meu tempo de juventude.
Peguei na mala e avancei para a fila de táxis. Ainda pus a hipótese de me deparar com um rosto familiar, mas depressa me desiludi.
Sentei-me no banco traseiro e disse para onde pretendia seguir. O motorista resmungou qualquer coisa entre dentes e carregou no acelerador como se tivesse pressa de me despejar.
Havia agora uma nova estrada que conduzia à freguesia onde eu nascera. Ao fim de cerca de um quarto de hora de caminho, entrámos na aldeia e pude reparar nas casas atarracadas que tombavam de velhas sobre as ruas.
Pedi para descer diante da igreja. Paguei, saí do carro e, de mala na mão, pus-me a olhar a manhã cinzenta e fresca. Algumas pessoas, que mal me olharam, de faces rebaixadas, pareciam ter medo de enfrentar os torvelinhos do dia.
Orientei-me pela memória e segui para a rua onde morava JED, uma das minhas amizades de infância, cujo rasto eu perdera há anos. Recordava a sua casa com nitidez e até podia calcular quantos passos precisaria de dar para chegar à sua porta. Mas só quando estendi o dedo para a campainha é que me dei conta da podridão e das teias de aranha que infestavam frinchas e gretas. Fiquei de braço no ar, olhando em volta, para as casas vizinhas, onde não se via vivalma. Nesse preciso instante, passou um carro, que abrandou ao passar por mim, mas quando fiz sinal de perguntar alguma coisa, desapareceu num ápice.
Encaminhei-me para a casa de HV, na esperança de ter mais sorte. Recebera notícias suas havia cerca de dois anos, por isso não contava com nova desilusão. Mas, ao dobrar a esquina da rua onde HV sempre vivera, vi que a sua casa simplesmente desaparecera. Bati na porta do lado e consegui que um nariz adunco espreitasse por uma nesga e me informasse que HV tinha falecido há cerca de seis meses e que a casa fora vendida e demolida, prevendo-se que ali fosse construída uma loja de mobílias.
Desci a rua e entrei num dos cafés em outros tempos frequentado por gente conhecida. O espaço estava obscurecido por um peso invisível. Duas sombras jogavam dominó, ante o olhar de uma terceira e, ao balcão, não se via ninguém.
Não abri a boca, para não distrair quem jogava, e esperei que me atendessem. Quando finalmente surgiu alguém que se pôs a mexer na caixa do dinheiro e me perguntou o que pretendia, fiquei sem palavras. Pareceu-me conhecer o seu rosto redondo e macilento. Tentei identificá-lo, mas as suas esquivas eram metódica e persistentes. Pensei que poderia tratar-se de alguém com feições parecidas e também considerei a possibilidade de haver confusão da minha parte. Acabei por comprar uma caixa de fósforos e sair sem querer saber de mais nada.
Fui sentar-me à porta da igreja, tentando organizar as ideias. A mala pesava e o que eu sentia na alma pesava mais do que a mala. Ao fim de uns minutos, entrei no templo e deixei-me levar pela leveza esmagadora do incenso que enchia a massa de ar obscurecida pelas paredes grossas e frias. Ajoelhei para dizer umas rezas, mas depressa me desconcentrei porque, a poucos centímetros de mim, havia um murganho a observar-me. Senti um ligeiro arrepio, mas logo a seguir reflecti que o pequeno roedor estaria apenas a interrogar-se sobre quem eu era, de onde vinha, ao que vinha. A sua aparência frágil acabou por me cativar. No fim de contas, aquele fora o único ser vivo que ocupara uns breves minutos do seu dia a olhar-me com intenção e perspicácia. E fê-lo com tamanha devoção que, no fundo dos seus olhos minúsculos, creio mesmo ter chegado a divisar uma réstia de calor quase humano…
Peguei na mala e avancei para a fila de táxis. Ainda pus a hipótese de me deparar com um rosto familiar, mas depressa me desiludi.
Sentei-me no banco traseiro e disse para onde pretendia seguir. O motorista resmungou qualquer coisa entre dentes e carregou no acelerador como se tivesse pressa de me despejar.
Havia agora uma nova estrada que conduzia à freguesia onde eu nascera. Ao fim de cerca de um quarto de hora de caminho, entrámos na aldeia e pude reparar nas casas atarracadas que tombavam de velhas sobre as ruas.
Pedi para descer diante da igreja. Paguei, saí do carro e, de mala na mão, pus-me a olhar a manhã cinzenta e fresca. Algumas pessoas, que mal me olharam, de faces rebaixadas, pareciam ter medo de enfrentar os torvelinhos do dia.
Orientei-me pela memória e segui para a rua onde morava JED, uma das minhas amizades de infância, cujo rasto eu perdera há anos. Recordava a sua casa com nitidez e até podia calcular quantos passos precisaria de dar para chegar à sua porta. Mas só quando estendi o dedo para a campainha é que me dei conta da podridão e das teias de aranha que infestavam frinchas e gretas. Fiquei de braço no ar, olhando em volta, para as casas vizinhas, onde não se via vivalma. Nesse preciso instante, passou um carro, que abrandou ao passar por mim, mas quando fiz sinal de perguntar alguma coisa, desapareceu num ápice.
Encaminhei-me para a casa de HV, na esperança de ter mais sorte. Recebera notícias suas havia cerca de dois anos, por isso não contava com nova desilusão. Mas, ao dobrar a esquina da rua onde HV sempre vivera, vi que a sua casa simplesmente desaparecera. Bati na porta do lado e consegui que um nariz adunco espreitasse por uma nesga e me informasse que HV tinha falecido há cerca de seis meses e que a casa fora vendida e demolida, prevendo-se que ali fosse construída uma loja de mobílias.
Desci a rua e entrei num dos cafés em outros tempos frequentado por gente conhecida. O espaço estava obscurecido por um peso invisível. Duas sombras jogavam dominó, ante o olhar de uma terceira e, ao balcão, não se via ninguém.
Não abri a boca, para não distrair quem jogava, e esperei que me atendessem. Quando finalmente surgiu alguém que se pôs a mexer na caixa do dinheiro e me perguntou o que pretendia, fiquei sem palavras. Pareceu-me conhecer o seu rosto redondo e macilento. Tentei identificá-lo, mas as suas esquivas eram metódica e persistentes. Pensei que poderia tratar-se de alguém com feições parecidas e também considerei a possibilidade de haver confusão da minha parte. Acabei por comprar uma caixa de fósforos e sair sem querer saber de mais nada.
Fui sentar-me à porta da igreja, tentando organizar as ideias. A mala pesava e o que eu sentia na alma pesava mais do que a mala. Ao fim de uns minutos, entrei no templo e deixei-me levar pela leveza esmagadora do incenso que enchia a massa de ar obscurecida pelas paredes grossas e frias. Ajoelhei para dizer umas rezas, mas depressa me desconcentrei porque, a poucos centímetros de mim, havia um murganho a observar-me. Senti um ligeiro arrepio, mas logo a seguir reflecti que o pequeno roedor estaria apenas a interrogar-se sobre quem eu era, de onde vinha, ao que vinha. A sua aparência frágil acabou por me cativar. No fim de contas, aquele fora o único ser vivo que ocupara uns breves minutos do seu dia a olhar-me com intenção e perspicácia. E fê-lo com tamanha devoção que, no fundo dos seus olhos minúsculos, creio mesmo ter chegado a divisar uma réstia de calor quase humano…
sábado, 19 de Setembro de 2009
O chão que piso
O que aqui vou escrevendo constitui quase exclusivamente o mundo em que vivo. Publico neste espaço dois textos por mês, mas antes de os escrever e finalizar ocupo uns dias a pensar nos temas que poderei abordar. Não me empenho muito, nem me preocupo. Deixo correr as coisas. Mas estou sempre alerta com o que acontece, a ver se surge algo que me alimente uma prosa.
Por vezes, não me ocorre nada que eu considere válido. As ideias parecem-me ocas e sensaboronas, o que me leva a deixar passar umas horas, ou até dias. Fecho a página e entretenho-me com qualquer coisa. Outras vezes, quando menos espero, vou a conduzir na estrada e salta-me uma ideia que considero digna e detentora de potencial. Para não a esquecer, encosto o carro à berma e anoto as linhas gerais na agenda electrónica. Mais tarde, escrevo sobre as notas que tomei, leio e releio, até me parecer que o texto está publicável. Enquanto não o dou por terminado, comprazo-me a geri-lo, moldá-lo, ajeitá-lo às circunstâncias e exigências.
O terreno sobre o qual assenta boa parte do meu quotidiano é feito das reflexões vagas e ligeiras que dão corpo ao que escrevo. E quanto mais tempo decorre sobre o dia em que dei início a esta experiência, quanto mais textos acumulo, mais consistente se torna o chão que piso.
Há ocasiões em que me deparo com um problema e em vez de o resolver, afasto-o, pondo-me a pensar num texto para incluir neste conjunto. Envolvo-me, evado-me, supero a realidade, passo adiante. Faço-o com gosto. Intencionalmente. E verifico depois que o problema nem sequer era particularmente complexo.
Um romance não tem o mesmo efeito destes textos curtos e não calculados. Nem tem o mesmo poder sobre o dia a dia. É possível alguém desaparecer nas páginas de um romance, mas corre o risco de, mais tarde, não encontrar o caminho de volta à realidade. Um romance é demasiado vertiginoso, demasiado absorvente. Não permite que se entre e saia com facilidade. Exige entrega total por dias, semanas, meses. Pode tornar-se uma vivência perigosa.
Estes textos curtos, não. São um estímulo sem consequências. Vêm e vão depressa. Confundem-se com a realidade. Não têm temática, são imprevisíveis, livres, despretensiosos e acabam por materializar um solo, uma ilha, uma cidade, com uma série de feitos, ideias, pessoas/personagens, projectos, visões, expectativas.
Neste espaço geográfico a que dei o nome de Digressão, nunca sei o que vai acontecer, se já aconteceu ou se está a acontecer. É tudo demasiado volátil para valer a pena apurar. Nada é programado. Os acontecimentos são vividos ao correr da pena.
Quando comecei este processo, não imaginava a importância que o mesmo teria na minha organização mental quotidiana. É como se estes textos fossem pedras de calçada, cápsulas vitamínicas. Obrigam-me a reflectir, observar, seguir o destino de ocorrências, divagações sensíveis, surpresas labirínticas. O que escrevo aqui tornou-se o caminho palpável das minhas horas.
Hoje, discorro sobre o próprio sentido destas prosas porque a sua lógica global não me impede de explorar seja que caminho for. Esmiuçar esta digressão é uma maneira de me situar no universo que habito, uma oportunidade de me balizar e orientar em cada passo que vou dando...
Por vezes, não me ocorre nada que eu considere válido. As ideias parecem-me ocas e sensaboronas, o que me leva a deixar passar umas horas, ou até dias. Fecho a página e entretenho-me com qualquer coisa. Outras vezes, quando menos espero, vou a conduzir na estrada e salta-me uma ideia que considero digna e detentora de potencial. Para não a esquecer, encosto o carro à berma e anoto as linhas gerais na agenda electrónica. Mais tarde, escrevo sobre as notas que tomei, leio e releio, até me parecer que o texto está publicável. Enquanto não o dou por terminado, comprazo-me a geri-lo, moldá-lo, ajeitá-lo às circunstâncias e exigências.
O terreno sobre o qual assenta boa parte do meu quotidiano é feito das reflexões vagas e ligeiras que dão corpo ao que escrevo. E quanto mais tempo decorre sobre o dia em que dei início a esta experiência, quanto mais textos acumulo, mais consistente se torna o chão que piso.
Há ocasiões em que me deparo com um problema e em vez de o resolver, afasto-o, pondo-me a pensar num texto para incluir neste conjunto. Envolvo-me, evado-me, supero a realidade, passo adiante. Faço-o com gosto. Intencionalmente. E verifico depois que o problema nem sequer era particularmente complexo.
Um romance não tem o mesmo efeito destes textos curtos e não calculados. Nem tem o mesmo poder sobre o dia a dia. É possível alguém desaparecer nas páginas de um romance, mas corre o risco de, mais tarde, não encontrar o caminho de volta à realidade. Um romance é demasiado vertiginoso, demasiado absorvente. Não permite que se entre e saia com facilidade. Exige entrega total por dias, semanas, meses. Pode tornar-se uma vivência perigosa.
Estes textos curtos, não. São um estímulo sem consequências. Vêm e vão depressa. Confundem-se com a realidade. Não têm temática, são imprevisíveis, livres, despretensiosos e acabam por materializar um solo, uma ilha, uma cidade, com uma série de feitos, ideias, pessoas/personagens, projectos, visões, expectativas.
Neste espaço geográfico a que dei o nome de Digressão, nunca sei o que vai acontecer, se já aconteceu ou se está a acontecer. É tudo demasiado volátil para valer a pena apurar. Nada é programado. Os acontecimentos são vividos ao correr da pena.
Quando comecei este processo, não imaginava a importância que o mesmo teria na minha organização mental quotidiana. É como se estes textos fossem pedras de calçada, cápsulas vitamínicas. Obrigam-me a reflectir, observar, seguir o destino de ocorrências, divagações sensíveis, surpresas labirínticas. O que escrevo aqui tornou-se o caminho palpável das minhas horas.
Hoje, discorro sobre o próprio sentido destas prosas porque a sua lógica global não me impede de explorar seja que caminho for. Esmiuçar esta digressão é uma maneira de me situar no universo que habito, uma oportunidade de me balizar e orientar em cada passo que vou dando...
quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
Terror
Deviam ser onze e tal da noite. Talvez onze e vinte. A esta distância no tempo, não posso recordar com exactidão, mas sei que faltava qualquer coisa para as onze e meia. Por isso, o mais certo é dizer que deviam ser onze e vinte, onze e vinte e três no máximo.
Lembro-me de vir a correr pela rua abaixo, sob uma iluminação deficiente, olhando para trás, a ver se me safava. Quanto mais olhava para trás, mais corria, na ânsia de me livrar daquela perseguição.
O filme acabara pouco depois das onze da noite. Naquele dia, JES e eu conseguíramos autorização para ir ao cinema. A custo, e debaixo de uma chuva de avisos, obtivemos o “sim” que nos fez sair de casa aos pulos, com um sentimento de autonomia que estava longe de corresponder à nossa realidade de todos os dias.
Seguimos para o cinema, confiantes, na esperança de uma noite bem passada. Sabíamos que íamos ver um filme de terror, mas não tínhamos ideia do que isso significava.
Por ter mais idade, foi JES quem comprou os bilhetes. Sentámo-nos na segunda ou terceira fila do balcão e esperámos que as luzes se apagassem.
Não consigo recordar pormenores da película. Perdeu-se tudo com o tempo, menos aquele rosto que me infundiu um terror tal que ainda hoje me arrepio só de o recordar.
Durante a exibição do filme, JES não deu sinais de amedrontamento. Manteve-se em sossego no assento, sem que se lhe ouvisse o mínimo rumor. Talvez estivesse em pânico, mas eu não tinha maneira de o saber.
Eu só rezava para que a fita terminasse. Desconhecia que podia abandonar a sala a qualquer momento. E mesmo que não o desconhecesse, seria incapaz de me ir embora sem a companhia de alguém. E a verdade é que sempre que olhava pelo canto do olho via JES em total imobilidade na cadeira, o que me fazia desanimar por completo e desistir de qualquer tentativa de fuga.
Suportei o tormento até ao fim. Mas quando as luzes da sala se acenderam o que me veio à cabeça foi o percurso que me faltava fazer para chegar a casa. Enquanto as pessoas iam abandonando a sala lentamente, eu ainda tinha o conforto da sua companhia, que era suficiente para afastar o medo. O pior viria depois.
Logo que dei comigo na rua, olhei para JES, com vista a observar a sua reacção e decidir o que faria.
Não demorei a ver esclarecida a minha curiosidade: sem dizer palavra, JES desatou a correr com todas as suas forças pela rua adiante, obrigando-me a seguir-lhe os passos.
Era noite escura, noite de breu, noite sem lua nem estrelas. Desatei a correr tanto, ou mais, do que JES. Não sei onde arranjei alento, mas corri como se Deus me tivesse dado mil pernas para calcorrear a distância que me separava de casa. Era curto o trajecto, mas pareceu-me o mais longo que alguma vez percorri.
Por mais rápida que fosse a nossa fuga, dava a sensação de estarmos sempre no mesmo lugar. Por vezes, eu seguia ligeiramente à frente de JES, outras vezes seguia ligeiramente atrás. Mas não havia maneira de chegarmos à porta da casa onde vivíamos, para podermos entrar, acender a luz do nosso quarto de dormir e respirar de alívio.
Durante a infindável corrida, nunca deixei de sentir a perseguição daquele rosto cadavérico envolto em teias de aranha que insistia em manter-se dois ou três metros atrás de mim. Perseguiu-me sempre essa caveira descarnada, lisa, sorridente. Perseguiu-me durante dezenas de anos, como se pode comprovar por este texto que, ainda hoje, aos cinquenta e cinco anos de idade, tive necessidade de escrever…
Lembro-me de vir a correr pela rua abaixo, sob uma iluminação deficiente, olhando para trás, a ver se me safava. Quanto mais olhava para trás, mais corria, na ânsia de me livrar daquela perseguição.
O filme acabara pouco depois das onze da noite. Naquele dia, JES e eu conseguíramos autorização para ir ao cinema. A custo, e debaixo de uma chuva de avisos, obtivemos o “sim” que nos fez sair de casa aos pulos, com um sentimento de autonomia que estava longe de corresponder à nossa realidade de todos os dias.
Seguimos para o cinema, confiantes, na esperança de uma noite bem passada. Sabíamos que íamos ver um filme de terror, mas não tínhamos ideia do que isso significava.
Por ter mais idade, foi JES quem comprou os bilhetes. Sentámo-nos na segunda ou terceira fila do balcão e esperámos que as luzes se apagassem.
Não consigo recordar pormenores da película. Perdeu-se tudo com o tempo, menos aquele rosto que me infundiu um terror tal que ainda hoje me arrepio só de o recordar.
Durante a exibição do filme, JES não deu sinais de amedrontamento. Manteve-se em sossego no assento, sem que se lhe ouvisse o mínimo rumor. Talvez estivesse em pânico, mas eu não tinha maneira de o saber.
Eu só rezava para que a fita terminasse. Desconhecia que podia abandonar a sala a qualquer momento. E mesmo que não o desconhecesse, seria incapaz de me ir embora sem a companhia de alguém. E a verdade é que sempre que olhava pelo canto do olho via JES em total imobilidade na cadeira, o que me fazia desanimar por completo e desistir de qualquer tentativa de fuga.
Suportei o tormento até ao fim. Mas quando as luzes da sala se acenderam o que me veio à cabeça foi o percurso que me faltava fazer para chegar a casa. Enquanto as pessoas iam abandonando a sala lentamente, eu ainda tinha o conforto da sua companhia, que era suficiente para afastar o medo. O pior viria depois.
Logo que dei comigo na rua, olhei para JES, com vista a observar a sua reacção e decidir o que faria.
Não demorei a ver esclarecida a minha curiosidade: sem dizer palavra, JES desatou a correr com todas as suas forças pela rua adiante, obrigando-me a seguir-lhe os passos.
Era noite escura, noite de breu, noite sem lua nem estrelas. Desatei a correr tanto, ou mais, do que JES. Não sei onde arranjei alento, mas corri como se Deus me tivesse dado mil pernas para calcorrear a distância que me separava de casa. Era curto o trajecto, mas pareceu-me o mais longo que alguma vez percorri.
Por mais rápida que fosse a nossa fuga, dava a sensação de estarmos sempre no mesmo lugar. Por vezes, eu seguia ligeiramente à frente de JES, outras vezes seguia ligeiramente atrás. Mas não havia maneira de chegarmos à porta da casa onde vivíamos, para podermos entrar, acender a luz do nosso quarto de dormir e respirar de alívio.
Durante a infindável corrida, nunca deixei de sentir a perseguição daquele rosto cadavérico envolto em teias de aranha que insistia em manter-se dois ou três metros atrás de mim. Perseguiu-me sempre essa caveira descarnada, lisa, sorridente. Perseguiu-me durante dezenas de anos, como se pode comprovar por este texto que, ainda hoje, aos cinquenta e cinco anos de idade, tive necessidade de escrever…
quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
Cremação
Quando cheguei à porta da sua casa, soube que iríamos jantar num restaurante ao virar da esquina. E pus-me a caminhar lentamente, pelo passeio, a seu lado. Mas AM parou, olhou-me e disse:
- Vamos de carro!
Por um momento, cheguei a pensar que precisasse de ir a qualquer lado antes do jantar, mas não. AM queria ir de carro para o restaurante, do qual não distávamos mais de duzentos ou trezentos metros.
Fiz-lhe a vontade. AM ajeitou o boné na cabeça, entrou, sentou-se a meu lado e lá fomos conversando, ao som da lentidão do motor.
Menos de um minuto depois, chegámos ao restaurante. Ficámos cá fora a falar mais uns minutos como se para dar a ideia de que valera a pena termos vindo de automóvel.
A seguir, demorámo-nos ainda a conversar no passeio, atravessámos a rua calmamente, fizemos um compasso de espera à porta do estabelecimento, entrámos, subimos ao primeiro andar e sentámo-nos numa das muitas mesas vagas.
Ficámos a olhar-nos, avaliando o estado das nossas almas. AM estava mais alerta do que o habitual. Os seus olhos eram pequenos e afiados, como se não pudesse perder uma vírgula do que estava a suceder.
Quando nos vieram perguntar o que pretendíamos comer, AM já começara a desfiar a sua história. Ostentava nos olhos uma acutilância que parecia premeditada.
Contou-me perseguições de que fora vítima na juventude, humilhações, desencantos, raivas, mortes, a morte de M. que o destroçou. Explicou, lembrou, pormenorizou. Olhou-me e reolhou-me, a ver se eu seguia as suas palavras.
Ainda oiço a sua voz, por entre o barulho de fundo do movimento de tachos e talheres na cozinha. A sua voz fina e delicada, esmiuçando-se em cada frase.
AM era apenas sofrimento. Demasiado sensível, tinha sentimento em excesso a fervilhar dentro de si. Não me recordo do que comemos naquele dia. Nem sei se comemos. Talvez peixe. Ou outra coisa.
A voz de AM chorava sem chorar. Inquiria-me, pedia-me opiniões. E voltava à carga.
Já tínhamos jantado em outras ocasiões, mas por causa da sua má audição, ou por qualquer outro motivo, ficava-me sempre a sensação de algo ter sido deixado a meio.
Naquele dia, não. Naquele dia, AM disse tudo e ouviu tudo, mesmo quando da minha boca não saía qualquer palavra. Era como se, ao falar, a sua voz tivesse o condão de ouvir os meus pensamentos.
AM falava como se rolando por uma escada sobre cujos degraus a vida se esboroava. O que dizia era uma tempestade incontrolável e mansa.
Não pensei se aquela seria a última vez que nos veríamos. Nem me perguntei se estaria a suceder alguma coisa que me passava à margem.
Mesmo agora, AM está aqui a meu lado, acenando afirmativamente com a cabeça, como quem diz: – Vês? Eu não te dizia? – E mudando de conversa: – Olha, vou ser cremado! As minhas cinzas hão-de ficar lá por casa. Depois, não te esqueças de ir aparecendo…
- Vamos de carro!
Por um momento, cheguei a pensar que precisasse de ir a qualquer lado antes do jantar, mas não. AM queria ir de carro para o restaurante, do qual não distávamos mais de duzentos ou trezentos metros.
Fiz-lhe a vontade. AM ajeitou o boné na cabeça, entrou, sentou-se a meu lado e lá fomos conversando, ao som da lentidão do motor.
Menos de um minuto depois, chegámos ao restaurante. Ficámos cá fora a falar mais uns minutos como se para dar a ideia de que valera a pena termos vindo de automóvel.
A seguir, demorámo-nos ainda a conversar no passeio, atravessámos a rua calmamente, fizemos um compasso de espera à porta do estabelecimento, entrámos, subimos ao primeiro andar e sentámo-nos numa das muitas mesas vagas.
Ficámos a olhar-nos, avaliando o estado das nossas almas. AM estava mais alerta do que o habitual. Os seus olhos eram pequenos e afiados, como se não pudesse perder uma vírgula do que estava a suceder.
Quando nos vieram perguntar o que pretendíamos comer, AM já começara a desfiar a sua história. Ostentava nos olhos uma acutilância que parecia premeditada.
Contou-me perseguições de que fora vítima na juventude, humilhações, desencantos, raivas, mortes, a morte de M. que o destroçou. Explicou, lembrou, pormenorizou. Olhou-me e reolhou-me, a ver se eu seguia as suas palavras.
Ainda oiço a sua voz, por entre o barulho de fundo do movimento de tachos e talheres na cozinha. A sua voz fina e delicada, esmiuçando-se em cada frase.
AM era apenas sofrimento. Demasiado sensível, tinha sentimento em excesso a fervilhar dentro de si. Não me recordo do que comemos naquele dia. Nem sei se comemos. Talvez peixe. Ou outra coisa.
A voz de AM chorava sem chorar. Inquiria-me, pedia-me opiniões. E voltava à carga.
Já tínhamos jantado em outras ocasiões, mas por causa da sua má audição, ou por qualquer outro motivo, ficava-me sempre a sensação de algo ter sido deixado a meio.
Naquele dia, não. Naquele dia, AM disse tudo e ouviu tudo, mesmo quando da minha boca não saía qualquer palavra. Era como se, ao falar, a sua voz tivesse o condão de ouvir os meus pensamentos.
AM falava como se rolando por uma escada sobre cujos degraus a vida se esboroava. O que dizia era uma tempestade incontrolável e mansa.
Não pensei se aquela seria a última vez que nos veríamos. Nem me perguntei se estaria a suceder alguma coisa que me passava à margem.
Mesmo agora, AM está aqui a meu lado, acenando afirmativamente com a cabeça, como quem diz: – Vês? Eu não te dizia? – E mudando de conversa: – Olha, vou ser cremado! As minhas cinzas hão-de ficar lá por casa. Depois, não te esqueças de ir aparecendo…
sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
Obrigação
Deviam ser quatro da tarde quando percebi que o meu corpo estava bastante maior do que o habitual. Os objectos à minha volta eram de dimensão reduzida e pareciam vistos do alto, o que significava que eu devia estar do tamanho de um elefante ou de uma girafa.
Não me preocupei, nem me assustei. Pareceu-me normal aquela sensação de ver tudo reduzido em meu redor. Em outras ocasiões, já tinha acontecido sentir-me do tamanho de um rato ou de uma formiga, cirandando por entre objectos gigantescos e ameaçadores.
Dirigi-me à cozinha, aos apertões por entre móveis, procurando não bater com a cabeça no tecto, e tentei fazer um café. Mas nem consegui abrir a embalagem para vazar o pó na máquina. Muito menos fui capaz de preparar o filtro. Os meus dedos estavam perros e largos como tubos de canalização.
Deixei-me cair no chão e fiquei a olhar para as coisas, sem fazer qualquer esforço para me libertar. Eu tinha a certeza de que estava tudo normal com a minha saúde (havia feito exames há pouco tempo) e nunca duvidei de que se houvera em mim alguma mudança fora apenas no plano psicológico. Por qualquer motivo que não sabia explicar, o meu corpo ganhava, por vezes, um volume extraordinário e eu já começava a habituar-me a isso.
Pensei em telefonar a alguém, mas lembrei-me de que praticamente não conhecia vivalma em Berlim. Contactar as autoridades não adiantaria muito porque eu não entendia uma palavra de alemão. E com o inglês também não iria longe.
Ao fim de cerca de uma hora, já me sentia bastante melhor, embora as pernas continuassem a denotar dificuldades, provavelmente devido ao inchaço.
Levantei-me, abri o frigorífico (um dos meus locais preferidos nas fugas à rotina), retirei uma embalagem de leite, enchi um copo e meti-lhe o dedo dentro, que depois levei à boca, para lhe sentir o gosto. Estava demasiado frio. Não bebi.
Pensei no que faria durante o resto do dia e acabei por concluir que talvez não fosse má ideia tentar adquirir o tamanho de uma minhoca, ou de um percevejo, a fim de observar o que me rodeava numa perspectiva diferente.
Mas não tive êxito. O meu corpo recusou-se a encolher. Não levei, porém, o assunto a sério. Vendo bem as coisas, nunca seria possível saber exactamente o tamanho do que quer que fosse. Uma sombra deslizando na parede poderia ser uma parte de mim a acudir a uma necessidade. Se me telefonassem, o que era bastante improvável, conseguiria eu galgar a distância que me separava dessa voz? Dias antes, lembrara-me de algo que sucedera há vinte anos e percebi que o meu corpo ocupara o espaço do tempo que desde então decorrera. Nunca me senti tão descomunal.
Deixei o copo de leite em cima da mesa e fui à janela ver os carros que passavam na rua. Compreendi que o meu corpo seguia em todos eles, independentemente dos lugares para onde se dirigiam. Eu viajava em todos os veículos que a minha vista alcançava, naquele preciso momento, conversando, calando, olhando, pensando, ao lado de alguém que me era familiar, com crianças aos pulos nos assentos de trás, ou sob o efeito tranquilizante do sono de algum animal de estimação.
A minha obrigação consistia em ser do tamanho do que me rodeava, do que se relacionava comigo, do que me alimentava, do que me justificava…
Não me preocupei, nem me assustei. Pareceu-me normal aquela sensação de ver tudo reduzido em meu redor. Em outras ocasiões, já tinha acontecido sentir-me do tamanho de um rato ou de uma formiga, cirandando por entre objectos gigantescos e ameaçadores.
Dirigi-me à cozinha, aos apertões por entre móveis, procurando não bater com a cabeça no tecto, e tentei fazer um café. Mas nem consegui abrir a embalagem para vazar o pó na máquina. Muito menos fui capaz de preparar o filtro. Os meus dedos estavam perros e largos como tubos de canalização.
Deixei-me cair no chão e fiquei a olhar para as coisas, sem fazer qualquer esforço para me libertar. Eu tinha a certeza de que estava tudo normal com a minha saúde (havia feito exames há pouco tempo) e nunca duvidei de que se houvera em mim alguma mudança fora apenas no plano psicológico. Por qualquer motivo que não sabia explicar, o meu corpo ganhava, por vezes, um volume extraordinário e eu já começava a habituar-me a isso.
Pensei em telefonar a alguém, mas lembrei-me de que praticamente não conhecia vivalma em Berlim. Contactar as autoridades não adiantaria muito porque eu não entendia uma palavra de alemão. E com o inglês também não iria longe.
Ao fim de cerca de uma hora, já me sentia bastante melhor, embora as pernas continuassem a denotar dificuldades, provavelmente devido ao inchaço.
Levantei-me, abri o frigorífico (um dos meus locais preferidos nas fugas à rotina), retirei uma embalagem de leite, enchi um copo e meti-lhe o dedo dentro, que depois levei à boca, para lhe sentir o gosto. Estava demasiado frio. Não bebi.
Pensei no que faria durante o resto do dia e acabei por concluir que talvez não fosse má ideia tentar adquirir o tamanho de uma minhoca, ou de um percevejo, a fim de observar o que me rodeava numa perspectiva diferente.
Mas não tive êxito. O meu corpo recusou-se a encolher. Não levei, porém, o assunto a sério. Vendo bem as coisas, nunca seria possível saber exactamente o tamanho do que quer que fosse. Uma sombra deslizando na parede poderia ser uma parte de mim a acudir a uma necessidade. Se me telefonassem, o que era bastante improvável, conseguiria eu galgar a distância que me separava dessa voz? Dias antes, lembrara-me de algo que sucedera há vinte anos e percebi que o meu corpo ocupara o espaço do tempo que desde então decorrera. Nunca me senti tão descomunal.
Deixei o copo de leite em cima da mesa e fui à janela ver os carros que passavam na rua. Compreendi que o meu corpo seguia em todos eles, independentemente dos lugares para onde se dirigiam. Eu viajava em todos os veículos que a minha vista alcançava, naquele preciso momento, conversando, calando, olhando, pensando, ao lado de alguém que me era familiar, com crianças aos pulos nos assentos de trás, ou sob o efeito tranquilizante do sono de algum animal de estimação.
A minha obrigação consistia em ser do tamanho do que me rodeava, do que se relacionava comigo, do que me alimentava, do que me justificava…
sábado, 25 de Julho de 2009
Que não saibam de onde venho nem para onde vou
Todas as manhãs desloco-me a um bar de hipermercado, onde tenho por hábito encostar-me a uma mesa de pé alto, diante de duas chávenas de café e uma sandes de queijo. É a minha viagem matinal, a uma distância de breves minutos da casa onde vivo. Por vezes, chego alguns momentos antes de o estabelecimento abrir, tal a minha necessidade de beber aqueles dois cafés e comer aquela sandes de queijo. Saio de casa a pensar no que vou ingerir e quando regresso venho com a mente a fervilhar de ideias e desejos.
Se chego ao hipermercado antes das nove horas, permaneço dentro do carro a ouvir a música que antecede o noticiário, enquanto vou olhando para outras pessoas que, como eu, esperam pela abertura da porta.
A superfície comercial tem multibanco, loja de roupa, perfumaria, cabeleireiro, florista, para além do espaço de venda principal, onde posso comprar tudo o que preciso.
Enquanto bebo os cafés e mastigo a sandes de queijo, penso no que me falta em casa (hesitando se o devo comprar naquele dia ou no seguinte) e vou mirando o átrio de entrada praticamente vazio, as caixas registadoras à espera de clientes, o bar com as poucas vivalmas que tomam o pequeno-almoço.
As pessoas do serviço de bar já me conhecem e nem preciso de abrir a boca quando me dirijo à caixa de pré-pagamento. É uma vantagem não dar explicações àquela hora da manhã. Ao menos não perfuro os tímpanos de ninguém, não incomodo, não firo sensibilidades.
Estendo a mão com uma moeda e sei que não demorará até me servirem os dois cafés e a sandes de queijo. Por vezes, vêem-me de longe ainda antes de eu chegar ao balcão e põem-se logo a preparar-me os cafés e a sandes.
Há dias em que imagino as conjecturas do pessoal do bar sobre os motivos que ali me levam todas as manhãs. Se é que conjecturam alguma coisa. Gosto que não me conheçam, que não saibam de onde venho, nem para onde vou. Quem me atende ao balcão provavelmente prefere não saber nada de mim. O silêncio torna tudo mais fácil, rápido e escorreito.
Os meus dois cafés são necessariamente amargos, espessos, fortes. Tomo-os, ao mesmo tempo que vou comendo a sandes e procuro afastar a mente do que me espera naquele dia. Penso no que significa fazer compras, nos produtos disponíveis e nos que se esgotam; penso nas tarefas de quem tem de detectar as lacunas nas prateleiras, fazer as encomendas e substituições; penso na zona dos frios, nos expositores de fruta e de guloseimas.
Há dias em que, depois de terminar os cafés e comer a sandes, me dirijo ao hipermercado, a ver se me deparo com algo de que me tenha esquecido e que me possa fazer falta em casa: iogurtes, maçãs, queijo de cabra, bolachas de arroz, pasta de dentes, guardanapos, água, comida para os animais. Ao passear por entre as prateleiras, tento verificar se há novidades. Mas, se as há, não dou por isso. Parecem-me sempre os mesmos produtos, embalagens, frascos, pacotes, cores, rótulos, marcas.
Quando decido voltar a casa, venho sempre com um sentimento de satisfação que, só por si, dá sentido ao meu dia. E, não poucas vezes, para aumentar o prazer que sinto naquele momento, ponho-me a pensar que, na manhã seguinte, voltarei ao hipermercado para repetir a dose da sandes e dos dois cafés…
Se chego ao hipermercado antes das nove horas, permaneço dentro do carro a ouvir a música que antecede o noticiário, enquanto vou olhando para outras pessoas que, como eu, esperam pela abertura da porta.
A superfície comercial tem multibanco, loja de roupa, perfumaria, cabeleireiro, florista, para além do espaço de venda principal, onde posso comprar tudo o que preciso.
Enquanto bebo os cafés e mastigo a sandes de queijo, penso no que me falta em casa (hesitando se o devo comprar naquele dia ou no seguinte) e vou mirando o átrio de entrada praticamente vazio, as caixas registadoras à espera de clientes, o bar com as poucas vivalmas que tomam o pequeno-almoço.
As pessoas do serviço de bar já me conhecem e nem preciso de abrir a boca quando me dirijo à caixa de pré-pagamento. É uma vantagem não dar explicações àquela hora da manhã. Ao menos não perfuro os tímpanos de ninguém, não incomodo, não firo sensibilidades.
Estendo a mão com uma moeda e sei que não demorará até me servirem os dois cafés e a sandes de queijo. Por vezes, vêem-me de longe ainda antes de eu chegar ao balcão e põem-se logo a preparar-me os cafés e a sandes.
Há dias em que imagino as conjecturas do pessoal do bar sobre os motivos que ali me levam todas as manhãs. Se é que conjecturam alguma coisa. Gosto que não me conheçam, que não saibam de onde venho, nem para onde vou. Quem me atende ao balcão provavelmente prefere não saber nada de mim. O silêncio torna tudo mais fácil, rápido e escorreito.
Os meus dois cafés são necessariamente amargos, espessos, fortes. Tomo-os, ao mesmo tempo que vou comendo a sandes e procuro afastar a mente do que me espera naquele dia. Penso no que significa fazer compras, nos produtos disponíveis e nos que se esgotam; penso nas tarefas de quem tem de detectar as lacunas nas prateleiras, fazer as encomendas e substituições; penso na zona dos frios, nos expositores de fruta e de guloseimas.
Há dias em que, depois de terminar os cafés e comer a sandes, me dirijo ao hipermercado, a ver se me deparo com algo de que me tenha esquecido e que me possa fazer falta em casa: iogurtes, maçãs, queijo de cabra, bolachas de arroz, pasta de dentes, guardanapos, água, comida para os animais. Ao passear por entre as prateleiras, tento verificar se há novidades. Mas, se as há, não dou por isso. Parecem-me sempre os mesmos produtos, embalagens, frascos, pacotes, cores, rótulos, marcas.
Quando decido voltar a casa, venho sempre com um sentimento de satisfação que, só por si, dá sentido ao meu dia. E, não poucas vezes, para aumentar o prazer que sinto naquele momento, ponho-me a pensar que, na manhã seguinte, voltarei ao hipermercado para repetir a dose da sandes e dos dois cafés…
quinta-feira, 9 de Julho de 2009
Uma história inventada é sempre verdadeira
As histórias reais são pobres. Começam e acabam de uma determinada maneira, têm lógica, são lineares, cinzentas, óbvias. As histórias fictícias são as que têm interesse porque ultrapassam barreiras, criam novas realidades, fazem acontecer coisas, pervertem relações. Que me interessa se algo aconteceu ou não? Interessa-me é contá-lo como se tivesse acontecido. O resto é trivialidade, é vazio.
Nada melhor do que uma história inventada. Uma história inventada é planeada, tem estratégia, ritmo, imprevisibilidade, exige ser engendrada, faz vibrar enquanto é construída, é sempre mais bonita do que uma história real. Uma história inventada é uma viagem no verdadeiro sentido do termo. Uma viagem da qual nada se sabe, nem sequer o que nos espera na curva seguinte.
Uma história real é previsível, tosca, elementar. Na realidade de todos os dias, as pessoas inibem-se, retraem-se, ocultam o que pensam e o que sentem. Numa história inventada, pelo contrário, as personagens são capazes de se superar, de dar a volta, de questionar de forma consequente e pertinente, de criar sobre a criação.
Uma personagem fictícia não tem medo. Uma pessoa real tem todo o medo do mundo. Uma personagem fictícia subverte regras e códigos. Uma pessoa real limita-se a obedecer. E quando prevarica é punida.
As personagens fictícias são livres e eternas, as pessoas reais são submissas e limitadas.
Nas histórias reais não há narrador e, se o há, a sua intervenção só ocorre depois do sucedido. Nas histórias inventadas, há narrador e o narrador acompanha a acção por dentro, a todo o instante. Se não o fizesse, não haveria história.
Certa vez, vi duas pessoas discutindo na rua por causa de uma delas ter dito algo que foi mal interpretado. A situação degradou-se de tal forma que uma delas, a dado passo, puxou de uma arma de bolso e disparou contra o peito da outra, que morreu imediatamente. Um acontecimento sem imaginação, violento, primário.
Outra vez, li uma história em que duas pessoas discutiam por causa de uma delas ter estacionado mal o carro, mas depois acabou por surgir a ideia de irem dar um passeio para melhor se entenderem. Assim fizeram. Caminharam junto ao rio, conversaram tanto que acabaram por ir dormir juntas na casa de uma delas. E tiveram uma grande noite.
As histórias ficcionadas aumentam a realidade, dão-lhe cor, diversidade, flexibilidade.
Excitação a sério é nas histórias inventadas porque nunca sabemos até que ponto as coisas podem realmente acontecer ou se são fruto da imaginação de quem conta ou de quem ouve ou de quem lê.
Quando eu era criança, as histórias davam-me vertigens, faziam que me perdesse nos seus labirintos absurdos e loucos. E apetecia-me nunca mais voltar à superfície. Ficava por lá até depois de tudo terminar. Ia toda a gente embora, mas eu não. Gostava de me deixar ficar passeando pelos sítios que tinha imaginado, a ver se mais alguma coisa acontecia. E nunca morri por isso. É outra vantagem das histórias inventadas: é possível viver nelas para sempre. Mesmo que o narrador mate uma, ou várias, personagens, elas eternizar-se-ão na narrativa.
Uma história inventada, diga-se o que se disser, é sempre verdadeira. Completamente verdadeira. O que não acontece com as histórias reais, que são confusas e obscuras, além de serem rapidamente esquecidas.
Nada melhor do que uma história inventada. Uma história inventada é planeada, tem estratégia, ritmo, imprevisibilidade, exige ser engendrada, faz vibrar enquanto é construída, é sempre mais bonita do que uma história real. Uma história inventada é uma viagem no verdadeiro sentido do termo. Uma viagem da qual nada se sabe, nem sequer o que nos espera na curva seguinte.
Uma história real é previsível, tosca, elementar. Na realidade de todos os dias, as pessoas inibem-se, retraem-se, ocultam o que pensam e o que sentem. Numa história inventada, pelo contrário, as personagens são capazes de se superar, de dar a volta, de questionar de forma consequente e pertinente, de criar sobre a criação.
Uma personagem fictícia não tem medo. Uma pessoa real tem todo o medo do mundo. Uma personagem fictícia subverte regras e códigos. Uma pessoa real limita-se a obedecer. E quando prevarica é punida.
As personagens fictícias são livres e eternas, as pessoas reais são submissas e limitadas.
Nas histórias reais não há narrador e, se o há, a sua intervenção só ocorre depois do sucedido. Nas histórias inventadas, há narrador e o narrador acompanha a acção por dentro, a todo o instante. Se não o fizesse, não haveria história.
Certa vez, vi duas pessoas discutindo na rua por causa de uma delas ter dito algo que foi mal interpretado. A situação degradou-se de tal forma que uma delas, a dado passo, puxou de uma arma de bolso e disparou contra o peito da outra, que morreu imediatamente. Um acontecimento sem imaginação, violento, primário.
Outra vez, li uma história em que duas pessoas discutiam por causa de uma delas ter estacionado mal o carro, mas depois acabou por surgir a ideia de irem dar um passeio para melhor se entenderem. Assim fizeram. Caminharam junto ao rio, conversaram tanto que acabaram por ir dormir juntas na casa de uma delas. E tiveram uma grande noite.
As histórias ficcionadas aumentam a realidade, dão-lhe cor, diversidade, flexibilidade.
Excitação a sério é nas histórias inventadas porque nunca sabemos até que ponto as coisas podem realmente acontecer ou se são fruto da imaginação de quem conta ou de quem ouve ou de quem lê.
Quando eu era criança, as histórias davam-me vertigens, faziam que me perdesse nos seus labirintos absurdos e loucos. E apetecia-me nunca mais voltar à superfície. Ficava por lá até depois de tudo terminar. Ia toda a gente embora, mas eu não. Gostava de me deixar ficar passeando pelos sítios que tinha imaginado, a ver se mais alguma coisa acontecia. E nunca morri por isso. É outra vantagem das histórias inventadas: é possível viver nelas para sempre. Mesmo que o narrador mate uma, ou várias, personagens, elas eternizar-se-ão na narrativa.
Uma história inventada, diga-se o que se disser, é sempre verdadeira. Completamente verdadeira. O que não acontece com as histórias reais, que são confusas e obscuras, além de serem rapidamente esquecidas.
domingo, 21 de Junho de 2009
Vi que os seus olhos não acreditavam
Quando me aproximei da porta, percebi que GS tinha companhia porque havia luzes acesas em diversas janelas. Passava pouco das 21 horas.
Premi a campainha e esperei, sem conseguir esconder um nervoso miudinho próprio das ocasiões em que não sabemos o rumo que as coisas vão tomar porque tudo é recente e pouco esclarecido.
Mal tinha acabado de tocar uma segunda vez quando a porta se abriu e surgiu alguém que devia ser familiar de GS. Percebi que a minha visita era esperada porque me foi logo flanqueada a entrada.
Senti alguma inibição, mas segui a pessoa por um corredor até à sala de estar, onde me deparei com GS no sofá, em atitude de descontracção e com um ar melancólico difícil de explicar.
Parecia que era a primeira vez que nos encontrávamos, mas era a segunda. GS fazia dança e com uma voz abatida informou-me que num dos ensaios tinha contraído uma entorse no tornozelo esquerdo.
Sentei-me a seu lado e procurei adaptar-me ao ambiente. GS vivia em casa dos pais, que falavam a meia voz na cozinha, onde se ouvia um moderado tilintar de talheres e movimento de pratos, deixando adivinhar que o jantar não terminara há muito.
Como não sabia o que dizer, estendi a mão, agarrei a de GS e deixei-me ficar assim, a ver o que acontecia. Era a primeira vez que tínhamos um gesto de intimidade. GS não fez qualquer movimento de rejeição, o que me encheu de uma segurança que poucos minutos antes eu estava longe de sentir.
A sua mão era quente, macia e seca. Através dela, eu tinha praticamente acesso aos seus pensamentos, pelo menos às suas divagações (eram mais divagações do que pensamentos).
Assaltou-me a dúvida de que GS poderia estar de mão dada comigo por esperar algo mais do nosso relacionamento. Ou talvez estivesse apenas em busca de algum conforto para a sua entorse. Os momentos a seguir poderiam trazer luz às minhas dúvidas. Mas tal não sucedeu.
GS pouco falou todo o serão e não teve qualquer outra iniciativa de aproximação para além de deixar estar a sua mão aninhada na minha.
A certa altura, dei-me conta de que havia música suave pairando na sala e perguntei-me por que motivo não me teria dado conta disso antes. Talvez porque o volume do som estava bastante baixo ou porque a pose de GS se confundia com a própria música.
GS tinha a arte de se sentar no sofá como quem dominava um palco sem necessidade de se deslocar. O ar era de uma leveza extrema à sua volta. Tal como as palavras que a sua mudez escondia.
Mas o silêncio que ao longo de quase duas horas se foi derramando da boca de GS nunca me incomodou. Pelo contrário, fez-me entrar numa névoa doce que tinha o condão de resolver os meus conflitos de consciência.
“Quando voltares ao teu país nunca mais te lembrarás de mim”, foi uma das últimas frases que lhe ouvi.
Discordei e expliquei que assim não seria, que havia de lhe telefonar logo que aterrasse em Lisboa e que na primeira oportunidade voltaria a Austin. Mas vi que os seus olhos não acreditavam no que eu dizia.
Despedimo-nos com um beijo nos lábios. GS pediu-me desculpa por não me acompanhar à porta de saída. Já não havia sinal dos pais na cozinha, que estava às escuras. Aproveitei para me esgueirar através do corredor, saindo sem barulho.
Premi a campainha e esperei, sem conseguir esconder um nervoso miudinho próprio das ocasiões em que não sabemos o rumo que as coisas vão tomar porque tudo é recente e pouco esclarecido.
Mal tinha acabado de tocar uma segunda vez quando a porta se abriu e surgiu alguém que devia ser familiar de GS. Percebi que a minha visita era esperada porque me foi logo flanqueada a entrada.
Senti alguma inibição, mas segui a pessoa por um corredor até à sala de estar, onde me deparei com GS no sofá, em atitude de descontracção e com um ar melancólico difícil de explicar.
Parecia que era a primeira vez que nos encontrávamos, mas era a segunda. GS fazia dança e com uma voz abatida informou-me que num dos ensaios tinha contraído uma entorse no tornozelo esquerdo.
Sentei-me a seu lado e procurei adaptar-me ao ambiente. GS vivia em casa dos pais, que falavam a meia voz na cozinha, onde se ouvia um moderado tilintar de talheres e movimento de pratos, deixando adivinhar que o jantar não terminara há muito.
Como não sabia o que dizer, estendi a mão, agarrei a de GS e deixei-me ficar assim, a ver o que acontecia. Era a primeira vez que tínhamos um gesto de intimidade. GS não fez qualquer movimento de rejeição, o que me encheu de uma segurança que poucos minutos antes eu estava longe de sentir.
A sua mão era quente, macia e seca. Através dela, eu tinha praticamente acesso aos seus pensamentos, pelo menos às suas divagações (eram mais divagações do que pensamentos).
Assaltou-me a dúvida de que GS poderia estar de mão dada comigo por esperar algo mais do nosso relacionamento. Ou talvez estivesse apenas em busca de algum conforto para a sua entorse. Os momentos a seguir poderiam trazer luz às minhas dúvidas. Mas tal não sucedeu.
GS pouco falou todo o serão e não teve qualquer outra iniciativa de aproximação para além de deixar estar a sua mão aninhada na minha.
A certa altura, dei-me conta de que havia música suave pairando na sala e perguntei-me por que motivo não me teria dado conta disso antes. Talvez porque o volume do som estava bastante baixo ou porque a pose de GS se confundia com a própria música.
GS tinha a arte de se sentar no sofá como quem dominava um palco sem necessidade de se deslocar. O ar era de uma leveza extrema à sua volta. Tal como as palavras que a sua mudez escondia.
Mas o silêncio que ao longo de quase duas horas se foi derramando da boca de GS nunca me incomodou. Pelo contrário, fez-me entrar numa névoa doce que tinha o condão de resolver os meus conflitos de consciência.
“Quando voltares ao teu país nunca mais te lembrarás de mim”, foi uma das últimas frases que lhe ouvi.
Discordei e expliquei que assim não seria, que havia de lhe telefonar logo que aterrasse em Lisboa e que na primeira oportunidade voltaria a Austin. Mas vi que os seus olhos não acreditavam no que eu dizia.
Despedimo-nos com um beijo nos lábios. GS pediu-me desculpa por não me acompanhar à porta de saída. Já não havia sinal dos pais na cozinha, que estava às escuras. Aproveitei para me esgueirar através do corredor, saindo sem barulho.